sábado, 14 de abril de 2012

Problemas de fala na adolescência

Hoje em dia o termo bullying é conhecido de todos nós e, de acordo com o neuropediatra Rui Vasconcelos*, a violência física e/ou psicológica atinge já mais de 40% das crianças. É sabido que a adolescência é um período de intensas mudanças e, por isso, bastante propício ao surgimento de complexos que poderão ser agravados por estes tipos de violência
Muitas vezes, as mudanças físicas a que os adolescentes estão sujeitos despertam a troça dos colegas, mas a verdade é que, para além das mudanças corporais que todos conhecemos, a fala é parte integrante da identidade dos adolescentes e influencia significativamente a forma como interagem com os seus colegas e familiares. Neste contexto, apresentamos este artigo a "4 mãos", sob as nossas perspetivas de terapeuta da fala e psicóloga, relatando um pouco das nossas experiências (todos os nomes referidos são fictícios).

Quem sou eu?
Ao chegar a adolescência o jovem começa a ter uma crescente consciência da sua imagem e uma grande preocupação existencial: Quem sou eu?
Neste processo, de construção da identidade, os pares assumem um papel crucial. O adolescente não quer ser diferente nem original, ele quer simplesmente ser igual ao seu grupo de referência. Ser igual é a melhor maneira de se ser invisível, é fazer parte, é estar com os outros. O adolescente prioriza acima de tudo a socialização e o divertimento, ficando a família relegada para segundo plano. Se algo vem perturbar o desenvolvimento da identidade social e individual do jovem, nesta fase do desenvolvimento, este acaba por vivenciar sentimentos de extrema solidão, pois se por um lado desinveste na comunicação com os adultos, por outro não se integra num grupo de referência.
A “diferença” é, sem dúvida, um fator que dificulta ou impossibilita a integração social do adolescente pois ele naturalmente vai hiperbolizar a sua diferença, vivenciá-la através de uma lente de aumentar, desenvolvendo níveis de ansiedade significativos e baixa autoestima. Desta forma o adolescente não tem recursos para conseguir lidar com as piadas dos colegas, as alcunhas, com o ser posto em foco. As defesas escolhidas são quase sempre o evitamento social, a retração, a não procura do outro como forma de se proteger da frustração. Como reação o grupo, inconscientemente, reage pela rejeição.

Quando a voz se altera
Para além das várias alterações corporais, a própria voz sofre alterações que muitas vezes são difíceis de aceitar pelos adolescentes, sobretudo rapazes. No rapaz entre os 13/15 anos, as pregas vocais crescem cerca de 1 cm e por isso a voz torna-se instável, desafinada e grossa.
Nas raparigas, esta variação é bastante mais discreta e normalmente não acarreta alterações significativas. Esta voz é característica de uma fase transitória no desenvolvimento que culminará com a aquisição da "voz de adulto", mas existem alterações que afetam a fala e que, sem o devido apoio, não se constituem apenas como transitórias. É o caso das alterações articulatórias que implicam a produção inadequada de determinado fonema do português.
Quantos de nós achamos engraçado o falar à "sopinha de massa", o que na terminologia de terapia da fala se designa por Sigmatismo? Contudo, mesmo em idades mais tenras, é frequente o impacto negativo nas relações sociais. Entre as várias alterações que podem ocorrer, conta-se a dificuldade em produzir os fonemas /l/ (ex.: "ua" em vez de "lua") e /r/ (ex.: "paa" em vez de "para"), sendo frequente a substituição por /g/ neste último (ex.: "paga" em vez de "para"). Para além destas questões articulatórias, também a gaguez se pode tornar um grave problema para o adolescente. O que os outros encaram como engraçado e alvo de troça, o adolescente sente, frequentemente, como uma barreira entre ele e os outros.

Impacto social e emocional
O adolescente com problemas de fala sente-se diferente e só isso é suficiente para causar um tumulto emocional. Nesta faixa etária é muito importante corrigir, na medida do possível, o distúrbio que o jovem apresenta pois conduz, inevitavelmente, a sentimentos mais ou menos potentes de falha, baixa autoestima e ao insucesso em algumas dimensões da sua vida. Na escola tenderá a ser pouco participativo na sala de aula e a desenvolver crises de ansiedade perante a exposição oral de trabalhos. Na família tenderá a ser um membro isolado, pouco participativo e relativamente submisso às decisões parentais.
Aconselha-se os pais a não exercerem pressão através de consecutivos e insistentes reparos e correções às suas dificuldades, de forma a dar ao adolescente alguma independência comunicacional. Socialmente poderá sentir-se estigmatizado, o que o coloca vulnerável a sentimentos depressivos e a fobias sociais.
O problema é que o jovem apresenta quase sempre baixa motivação terapêutica. O fato de estar a receber terapia implica o confronto com as suas dificuldades, o que causa grande sofrimento. Desta forma, em muitos casos, torna-se crucial o trabalho conjunto da terapia da fala com o apoio psicológico.

Manuel
Quando uma criança chega à terapia da fala, para além de perceber qual a perturbação que a leva à consulta é fundamental saber o impacto que essa alteração tem já no seu dia-a-dia. Muitas vezes, mesmo aos 6 anos já existe uma grande timidez e retração na sequência de problemas de fala pois, mesmo nesta idade, já pode existir uma perceção negativa sobre a sua fala, levando a dificuldades de interação com os colegas e evitamento da participação em contexto de sala de aula.
É o caso do Manuel que é acompanhado em Terapia da Fala desde os 5 anos, mas agora que ingressou no primeiro ano de escolaridade sente cada vez mais o impacto da alteração e prefere resguardar-se e não falar na sala de aula frente aos colegas, deixando de responder a questões nas quais se sente à vontade, de modo a não expor a sua dificuldade. Ainda assim, nesta idade, o trabalho é facilitado pois a alteração tem ainda um período de existência reduzido, enquanto que, à medida que a criança cresce se torna mais difícil modificar o padrão articulatório.

Marco
O Marco chegou à terapia com 12 anos, um quadro de gaguez e uma alteração articulatória (não era capaz de dizer o "lh"), chorou na primeira avaliação de terapia da fala. Rapidamente confessou que não se sentia seguro porque era alvo de troça pelos colegas e nunca era convidado para as festas dos amigos, sendo posto à parte. À medida que a intervenção avançou começou a sentir-se mais confiante e a não ter medo de falar. Hoje já diz o "lh" mas a sua gaguez ainda se revela um problema nalgumas situações, contudo o melhor domínio articulatório e a aquisição de algumas estratégias de controlo da sua gaguez fazem com que já se sinta mais à-vontade e comece a integrar-se no seu grupo de pares.

André
O André chegou à terapia da fala com 11 anos com uma alteração na produção do /r/ (fonema substituído por /g/) e em fase de mudança de voz, era com as raparigas que se sentia menos à-vontade. Com muito empenho, rapidamente, começou a melhorar e aprendeu a aceitar a sua voz, que estava em processo de mudança.

Marta
A Marta regressou à terapia aos 13 anos, depois de ter sido acompanhada por volta dos 6 anos, com o intuito de colmatar a ocorrência de sigmatismo. Esta alteração articulatória ocorria ainda esporadicamente, o que a deixava insegura perante os amigos e por isso voltava agora a incomodá-la.

Joel
Joel, 17 anos, com distúrbio da fala consequência de uma fenda palatina, teve terapia da fala enquanto criança mas no início da puberdade apresentou uma recusa à terapia ou a mais intervenções estéticas no lábio. Esta recusa configurava uma defesa do Joel contra a depressão, que preferia não ser confrontado com as suas dificuldades, “fazendo de conta” que elas não existiam.
Sentia-se seguro dentro do seu grupo familiar e de amigos que não o faziam confrontar-se com o defeito da fala. Contudo a perspetiva de entrar na faculdade e de ter que lidar com novas interações sociais conduziu a uma reação de ansiedade e depressão que o levou à consulta de psicologia. Foi através do acompanhamento psicoterapêutico que o Joel encontrou motivação para regressar à terapia da fala.

Catarina
Catarina tem 15 anos e apresenta uma perturbação articulatória que se tem mostrado resistente à terapia da fala. Aparece em consulta de psicologia devido à preocupação dos pais face ao impacto que esta perturbação da fala poderá ter no seu desenvolvimento pessoal e social.
Na verdade rapidamente se torna percetível a razão da fraca evolução em termos de terapia. A Catarina utilizou o seu defeito como uma “imagem de marca”, que acabou por reverter em favor da sua popularidade entre os colegas. Retirava benefícios secundários desta sua diferença e por isso não estava emocionalmente disponível para “melhorar”.

Em suma, para nós que estamos de fora, estas alterações podem até ser encaradas com humor, mas, para o adolescente, muitas vezes se constituem como um handicap para as suas vivências sociais, o que terá um impacto muito relevante na construção da sua identidade enquanto adultos. Até a própria postura perante o mercado de trabalho poderá ser completamente alterada, na medida em que muitas vezes evitam cursos e profissões que envolvam o contacto direto com o público.
Para bem dos nossos adolescentes torna-se primordial evitar uma atitude de desvalorização e atribuir a estes problemas a real importância que desempenham na sua vida. Neste contexto, é essencial procurar apoio de terapia da fala e/ou psicologia o mais cedo possível para evitar o impacto negativo no futuro. É importante salientar que, dependendo também do empenho do adolescente, alguns meses de acompanhamento podem ser suficientes para obter resultados favoráveis.
Tentemos colocar-nos no papel do jovem: já se sente diferente porque o seu corpo está a mudar e sente-se diferente porque tem consciência que não "sabe falar", é caso para refletir sobre o que sentiríamos nós no seu lugar?




3 comentários:

soumaiseu.blogs.sapo.pt disse...

Olá! Cheguei a este blog por andar à procura de informação extra sobre terapia da fala. Tenho uma filha com 5 anos e meio que não consegue articular o som "r" (caro, carocha, laranja..), transformando-o em "i"... a Educadora falou-me na possibilidade dela vir a ter de fazer terapia da fala... eu bem a corrijo, mas não estou a ter o resultado que gostaria! :-) Gostei do seu texto, achei-o elucidativo. Cheio de informação! Obrigada e parabéns pelo blog!
São

Filipe disse...

A Câmara Municipal de Castro Daire criou o 1º Sistema de Comunicação Aumentativo e Alternativo Multiplataforma (Windows, Mac, Linux, Android, iPad, iPhone) desenvolvido em Portugal, com funcionalidades únicas no mundo e totalmente gratuito.

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http://www.cm-castrodaire.pt/bia

Filipe disse...

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