terça-feira, 11 de novembro de 2014

A evolução da linguagem até aos 3 anos

linguagem ate aos 3 anos
Veja o vídeo aqui.
Durante a gravidez os pais esperam ansiosamente a chegada do seu rebento, uma nova etapa, uma nova vida, um novo ser… Um ser que nasce e cresce impressionantemente rápido, as roupinhas deixam de servir, surgem novos gestos, novas gracinhas, novas vocalizações… Inicia-se o caminho da comunicação: um choro diferente para cada necessidade, um sorriso em resposta ao nosso sorriso, uma gracinha repetida para nos ver sorrir, a primeira palavra que nos faz celebrar, os primeiros passinhos que para nós merecem uma festa!
O ser humano é um ser social, comunicar é primordial e a fala é o veículo de comunicação privilegiado.
Para os pais surgem muitas vezes inseguranças: quando é que o seu bebé vai começar a falar? Será que já devia dizer mais coisas? Quando é que vai começar a fazer frases? Como é que eu devo levar para que me entenda? Para responder a estas e outras questões vamos percorrer as etapas de desenvolvimento linguístico até aos 3 anos, altura em que qualquer adulto deverá já compreender o discurso da criança, não esquecendo, no entanto que cada criança tem o seu ritmo de desenvolvimento que tem que ser respeitado.
Se houver dúvidas, fale com o seu médico de família, com o seu pediatra e não deixe de consultar um terapeuta da fala, estes são os profissionais a quem deve recorrer para que sejam efetuados os despistes necessários e para que, em caso de necessidade, a intervenção seja o mais precoce possível.

0 aos 6 meses

O que acontece?

  • Chora de forma diferente consoante as necessidades: Nas primeiras 8 semanas de vida, o recém-nascido tem a sua comunicação muito reduzida, só tem à sua disposição o choro reflexo para expressar desconforto. A partir da 8ª semana o bebé torna-se mais responsivo, começa a saber manifestar a sua satisfação, o seu bem-estar, o gosto pela companhia dos interlocutores. Progressivamente o adulto vai conseguindo distinguir entre choro de dor (cólicas por exemplo), fome, sono, chamada de atenção por querer companhia …
  • Reage a sons e começa a dirigir o olhar e/ou a cabeça na sua direção.
  • Produz sons (sucção, arrotos, soluços, espirros, suspiros, palreio).
  • Manifesta os primeiros sorrisos intencionais, a primeira manifestação de bem-estar físico, psíquico e afetivo.
  • Começa a “conversar” (protoconversação) surgindo as primeiras alternâncias na tomada de vez da comunicação, a sobreposição das vocalizações do bebé e do adulto são menos frequentes.

Conselhos

  • Escute e responda às iniciativas do bebé (choro, movimentos corporais, riso, olhar…): Se por exemplo o bebé chorar com fome diga: “Calma bebé, a mamã já vai dar de mamar…”.
  • Cante e ria com o bebé: O canto acalma os nossos bebés e o riso é por excelência uma manifestação de bem-estar.
  • Fale com calma com o bebé: Aqui as rotinas diárias têm uma importância crucial, constituirão as bases para as primeiras aprendizagens semânticas, utilize frases simples e:
    • Explique-lhe o que ouve;
    • Explique-lhe o que faz durante a alimentação, higiene…
    • Nomeie pessoas familiares e objetos do dia-a-dia.

Sinais de Alerta

  • Não reage aos sons.
  • Não estabelece contacto ocular.

6 aos 12 meses

O que acontece?

  • Balbucio reduplicado: Mais do que produzir sons começa a produzir cadeias vocais dos mesmos sons repetidos /mamamamama/, /tatatatata/, /bababababa/ e consegue produzi-los durante bastante tempo seguido.
  • Reage ao seu nome, olhando para si quando o chama.
  • Reage quando o adulto nomeia objetos do uso comum, por exemplo se o adulto nomear um brinquedo que o bebé goste, ele vai querer alcança-lo ou olhar na sua direção.
  • Diz 1 ou 2 palavras, habitualmente “mamã” ou “papá” porque contêm consoantes bilabiais, as mais fáceis a ser aprendidas por serem as mais visíveis.

Conselhos

  • Encoraje todos os tipos de interação (expressão facial, riso, olhar…), ajude o bebé a descobrir o prazer da comunicação.
  • Dê tempo ao bebé para responder: É importantíssimo estimular a troca de turnos durante a comunicação e isto pode ser feito durante um qualquer jogo, por exemplo de encaixes, eu encaixo, tu encaixas… A imitação é também um ponto de partida para o turn-taking, o bebé faz, o adulto imita e o bebé volta a imitar.
  • Responda ligeiramente acima do nível das produções da criança: Aqui o importante é que expanda os enunciados da criança, por exemplo, a mãe está a brincar com a criança e o bebé produz /mamamamama/, a mãe pode dizer: “/mamamama/, sim a mamã está aqui, a mamã está a brincar com o bebé”.

Sinais de Alerta

  • Não reage ao seu nome.
  • Não reage a sons familiares como o telefone.
  • Deixa de produzir sons.

 12 aos 18 meses

O que acontece?

  • Identifica objetos de uso comum.
  • Compreende verbos de ações relacionadas com a vida diária.
  • Diz palavras isoladas com sentido de uma frase (ex.: dá, pai, mãe).
  • Repete palavras familiares.
  • Imita ações do adulto.

Conselhos

  • Responda ligeiramente acima do nível das produções da criança.
  • Dê o modelo correto, mas atenção que nesta idade é normal que a criança não diga as palavras corretamente, o importante nesta fase é que as diga e não como as diz.
  • Mostre-lhe livros e fale sobre eles.

Sinais de Alerta

  • Não usa palavras isoladas.
  • Não reage quando brincam com ele (ex.: olhando ou sorrindo).

18 aos 24 meses

O que acontece?

  • Identifica objetos e imagens de objetos.
  • Identifica partes do corpo.
  • Compreende ordens simples (ex.: "anda cá").
  • Diz o seu nome.
  • Junta 2 palavras em frases simples (ex.: "não quero").

Conselhos

  • Enriqueça o seu vocabulário nas situações do dia-a-dia, bem como as frases, por exemplo se a criança disser “popó aqui”, o adulto pode dizer “O popó está aqui”.
  • Produza palavras que ele não utiliza.

Sinais de Alerta

  • Não compreende ordens simples.
  • Não produz mais do que 5 palavras.

2-3 anos

O que acontece?

  • Brinca ao faz de conta, por exemplo dar de comer a um boneco.
  • “Idade dos porquês”.
  • Grande expansão de vocabulário.
  • Nomeia e diz para que servem objetos comuns.
  • Identifica imagens de ações.
  • Identifica grande, pequeno e muito.
  • Produz frases com 4 palavras (ex.: Eu quero um gato!; Hoje vou à escola!; Eu gosto de gelado!).
  • Começa a produzir frases coordenadas (ex.: "Eu quero um gato e um cão.").
  • Utiliza predominantemente substantivos.
  • Utiliza verbos, adjetivos, determinantes, pronomes pessoais, alguns advérbios e preposições.
  • Já começa a fazer a variação em género e número.

Conselhos

  • Envolva a criança nas atividades do dia-a-dia.
  • Reserve tempo para ouvir a criança e responder-lhe.
  • Expanda os seus enunciados, por exemplo se a criança disser "comer", diga "Vamos comer a sopa".
  • Façam jogos em que cada um joga na sua vez (lotos de imagens, de identificação de sons, de associação de pares, cores...)
  • Se a criança ainda usa o biberão e/ou a chupeta, encoraje-a a deixar de usar!

Sinais de Alerta

  • Não junta 2 palavras em frases simples (ex.: "dá pão").
  • O discurso não é percepetível.
Frase modelo adultos

Bibliografia:


  • Prevention: Developing Language, disponível em www.cplol.org
  • Rebelo, Ana e Vital, Ana. Desenvolvimento da linguagem e sinais de alerta: Construção e validação de um folheto informativo. Re(habilitar), nº 2, Edições Colibri, 2006, pp.69-98.
  • RIGOLET, Sylviane A.. Os Três P (Precoce, Progressivo, Positivo): Comunicação e Linguagem para uma Plena Expressão. Porto: Porto Editora, 2000.
  • SIM-SIM, Inês. Desenvolvimento da Linguagem. Lisboa: Universidade Aberta, 1998..

terça-feira, 16 de abril de 2013

16/04/2013. Dia Mundial da Voz!

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Voz, aproveite e aprenda a cuidar melhor da sua! Saiba mais aqui!

domingo, 14 de abril de 2013

O espectro do autismo


O espectro do autismo

crianca autismo

Link para o artigo no Site Fale Connosco

Artigo publicado na revista ABCriança

Autor: Terapeuta da Fala Rita Costa

Neste mês em que se comemora o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo (2 de Abril) coloca-se a questão: afinal o que é o autismo? Quais são os traços que o caracterizam?
Devido às diversas manifestações comportamentais com diferentes graus de intensidade e severidade que encontramos nas crianças com autismo, Wing (1988) propôs a introdução do conceito "Espectro do Autismo" que abrange vários tipos, cada um com traços característicos. Contudo, dentro de cada tipo podemos encontrar comportamentos muito diferentes, ou seja, não há um padrão único que caracterize a pessoa com autismo! Mais importante do que atribuir um rótulo (saber que se trata de um autismo e que é do tipo a, b, c, d ou e) é identificar as características específicas daquela criança, pois é com base nelas que intervimos e só assim conseguiremos resultados verdadeiramente positivos!

Autismo clássico ou Sindroma de Kanner

• Contacto visual reduzido;
• Estereotipias verbais e comportamentais;
• Marcada resistência à mudança;
• Procura constante de isolamento;
• Especial interesse por determinados objectos e comportamentos.

Síndroma de Asperger

• A comunicação é menos afectada que no autismo clássico e até habitual que a linguagem se desenvolva precocemente.
• O quociente de inteligência (Q.I.) é mais elevado do que no autismo clássico.

Perturbação desintegrativa da infância

• A criança apresenta um desenvolvimento normal até cerca dos 2 a 4 anos de idade, aparecendo, posteriormente, de forma gradual, graves sintomas de autismo.
• Perda significativa de aptidões anteriormente adquiridas (em pelo menos dois dos seguintes domínios: aptidões sociais, aptidões motoras, linguagem e controlo dos esfíncteres) e a perturbação em pelo menos dois dos três domínios da tríade (comunicação, interacção social e uso da imaginação).

Autismo atípico

• As características observadas não correspondem na totalidade ao Autismo clássico ou ao Síndroma de Asperger ou à Perturbação desintegrativa da infância.

Traços de autismo

• Neste grupo incluem-se as pessoas que não se enquadram no Autismo clássico, Síndroma de Asperger, Perturbação desintegrativa da infância ou Autismo atípico e manifestam pelo menos três sinais (o défice de atenção é um exemplo) que não correspondem a estes critérios.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A voz no Programa "A Tarde é Sua"

No dia 16 de Abril, dia Mundial da Voz, tive a oportunidade de participar no programa "A Tarde é Sua", apresentado pela Fátima Lopes!

Pode ver aqui o vídeo.

Porque a Voz não tira férias...


Porque a Voz não tira férias...

Associámo-nos à FENPROF para assinalar este ano o Dia Mundial da Voz.
 


Mas afinal o que é a voz? Como produzimos voz? Qual a sua importância? Como manter a voz saudável? Como preservar a voz se ela é a sua ferramenta de trabalho diária e não pode pura e simplesmente "dar-lhe férias"?

É nossa responsabilidade preservar a nossa voz, por isso deve lembrar-se sempre de beber muita água (1l a 1,5l por dia); fazer uma alimentação equilibrada e praticar exercício; não usar drogas, fumar ou ingerir bebidas alcoólicas em demasia e relaxar. Se tiver sintomas como rouquidão, tensão, secura, dor de garganta ou azia e se esses sintomas já duram há mais de 2 semanas, procure uma consulta de voz que, se possível, deve ser efectuada por um otorrinolaringologista e um terapeuta da fala que certamente o saberão orientar!

sábado, 14 de abril de 2012

Problemas de fala na adolescência

Hoje em dia o termo bullying é conhecido de todos nós e, de acordo com o neuropediatra Rui Vasconcelos*, a violência física e/ou psicológica atinge já mais de 40% das crianças. É sabido que a adolescência é um período de intensas mudanças e, por isso, bastante propício ao surgimento de complexos que poderão ser agravados por estes tipos de violência
Muitas vezes, as mudanças físicas a que os adolescentes estão sujeitos despertam a troça dos colegas, mas a verdade é que, para além das mudanças corporais que todos conhecemos, a fala é parte integrante da identidade dos adolescentes e influencia significativamente a forma como interagem com os seus colegas e familiares. Neste contexto, apresentamos este artigo a "4 mãos", sob as nossas perspetivas de terapeuta da fala e psicóloga, relatando um pouco das nossas experiências (todos os nomes referidos são fictícios).

Quem sou eu?
Ao chegar a adolescência o jovem começa a ter uma crescente consciência da sua imagem e uma grande preocupação existencial: Quem sou eu?
Neste processo, de construção da identidade, os pares assumem um papel crucial. O adolescente não quer ser diferente nem original, ele quer simplesmente ser igual ao seu grupo de referência. Ser igual é a melhor maneira de se ser invisível, é fazer parte, é estar com os outros. O adolescente prioriza acima de tudo a socialização e o divertimento, ficando a família relegada para segundo plano. Se algo vem perturbar o desenvolvimento da identidade social e individual do jovem, nesta fase do desenvolvimento, este acaba por vivenciar sentimentos de extrema solidão, pois se por um lado desinveste na comunicação com os adultos, por outro não se integra num grupo de referência.
A “diferença” é, sem dúvida, um fator que dificulta ou impossibilita a integração social do adolescente pois ele naturalmente vai hiperbolizar a sua diferença, vivenciá-la através de uma lente de aumentar, desenvolvendo níveis de ansiedade significativos e baixa autoestima. Desta forma o adolescente não tem recursos para conseguir lidar com as piadas dos colegas, as alcunhas, com o ser posto em foco. As defesas escolhidas são quase sempre o evitamento social, a retração, a não procura do outro como forma de se proteger da frustração. Como reação o grupo, inconscientemente, reage pela rejeição.

Quando a voz se altera
Para além das várias alterações corporais, a própria voz sofre alterações que muitas vezes são difíceis de aceitar pelos adolescentes, sobretudo rapazes. No rapaz entre os 13/15 anos, as pregas vocais crescem cerca de 1 cm e por isso a voz torna-se instável, desafinada e grossa.
Nas raparigas, esta variação é bastante mais discreta e normalmente não acarreta alterações significativas. Esta voz é característica de uma fase transitória no desenvolvimento que culminará com a aquisição da "voz de adulto", mas existem alterações que afetam a fala e que, sem o devido apoio, não se constituem apenas como transitórias. É o caso das alterações articulatórias que implicam a produção inadequada de determinado fonema do português.
Quantos de nós achamos engraçado o falar à "sopinha de massa", o que na terminologia de terapia da fala se designa por Sigmatismo? Contudo, mesmo em idades mais tenras, é frequente o impacto negativo nas relações sociais. Entre as várias alterações que podem ocorrer, conta-se a dificuldade em produzir os fonemas /l/ (ex.: "ua" em vez de "lua") e /r/ (ex.: "paa" em vez de "para"), sendo frequente a substituição por /g/ neste último (ex.: "paga" em vez de "para"). Para além destas questões articulatórias, também a gaguez se pode tornar um grave problema para o adolescente. O que os outros encaram como engraçado e alvo de troça, o adolescente sente, frequentemente, como uma barreira entre ele e os outros.

Impacto social e emocional
O adolescente com problemas de fala sente-se diferente e só isso é suficiente para causar um tumulto emocional. Nesta faixa etária é muito importante corrigir, na medida do possível, o distúrbio que o jovem apresenta pois conduz, inevitavelmente, a sentimentos mais ou menos potentes de falha, baixa autoestima e ao insucesso em algumas dimensões da sua vida. Na escola tenderá a ser pouco participativo na sala de aula e a desenvolver crises de ansiedade perante a exposição oral de trabalhos. Na família tenderá a ser um membro isolado, pouco participativo e relativamente submisso às decisões parentais.
Aconselha-se os pais a não exercerem pressão através de consecutivos e insistentes reparos e correções às suas dificuldades, de forma a dar ao adolescente alguma independência comunicacional. Socialmente poderá sentir-se estigmatizado, o que o coloca vulnerável a sentimentos depressivos e a fobias sociais.
O problema é que o jovem apresenta quase sempre baixa motivação terapêutica. O fato de estar a receber terapia implica o confronto com as suas dificuldades, o que causa grande sofrimento. Desta forma, em muitos casos, torna-se crucial o trabalho conjunto da terapia da fala com o apoio psicológico.

Manuel
Quando uma criança chega à terapia da fala, para além de perceber qual a perturbação que a leva à consulta é fundamental saber o impacto que essa alteração tem já no seu dia-a-dia. Muitas vezes, mesmo aos 6 anos já existe uma grande timidez e retração na sequência de problemas de fala pois, mesmo nesta idade, já pode existir uma perceção negativa sobre a sua fala, levando a dificuldades de interação com os colegas e evitamento da participação em contexto de sala de aula.
É o caso do Manuel que é acompanhado em Terapia da Fala desde os 5 anos, mas agora que ingressou no primeiro ano de escolaridade sente cada vez mais o impacto da alteração e prefere resguardar-se e não falar na sala de aula frente aos colegas, deixando de responder a questões nas quais se sente à vontade, de modo a não expor a sua dificuldade. Ainda assim, nesta idade, o trabalho é facilitado pois a alteração tem ainda um período de existência reduzido, enquanto que, à medida que a criança cresce se torna mais difícil modificar o padrão articulatório.

Marco
O Marco chegou à terapia com 12 anos, um quadro de gaguez e uma alteração articulatória (não era capaz de dizer o "lh"), chorou na primeira avaliação de terapia da fala. Rapidamente confessou que não se sentia seguro porque era alvo de troça pelos colegas e nunca era convidado para as festas dos amigos, sendo posto à parte. À medida que a intervenção avançou começou a sentir-se mais confiante e a não ter medo de falar. Hoje já diz o "lh" mas a sua gaguez ainda se revela um problema nalgumas situações, contudo o melhor domínio articulatório e a aquisição de algumas estratégias de controlo da sua gaguez fazem com que já se sinta mais à-vontade e comece a integrar-se no seu grupo de pares.

André
O André chegou à terapia da fala com 11 anos com uma alteração na produção do /r/ (fonema substituído por /g/) e em fase de mudança de voz, era com as raparigas que se sentia menos à-vontade. Com muito empenho, rapidamente, começou a melhorar e aprendeu a aceitar a sua voz, que estava em processo de mudança.

Marta
A Marta regressou à terapia aos 13 anos, depois de ter sido acompanhada por volta dos 6 anos, com o intuito de colmatar a ocorrência de sigmatismo. Esta alteração articulatória ocorria ainda esporadicamente, o que a deixava insegura perante os amigos e por isso voltava agora a incomodá-la.

Joel
Joel, 17 anos, com distúrbio da fala consequência de uma fenda palatina, teve terapia da fala enquanto criança mas no início da puberdade apresentou uma recusa à terapia ou a mais intervenções estéticas no lábio. Esta recusa configurava uma defesa do Joel contra a depressão, que preferia não ser confrontado com as suas dificuldades, “fazendo de conta” que elas não existiam.
Sentia-se seguro dentro do seu grupo familiar e de amigos que não o faziam confrontar-se com o defeito da fala. Contudo a perspetiva de entrar na faculdade e de ter que lidar com novas interações sociais conduziu a uma reação de ansiedade e depressão que o levou à consulta de psicologia. Foi através do acompanhamento psicoterapêutico que o Joel encontrou motivação para regressar à terapia da fala.

Catarina
Catarina tem 15 anos e apresenta uma perturbação articulatória que se tem mostrado resistente à terapia da fala. Aparece em consulta de psicologia devido à preocupação dos pais face ao impacto que esta perturbação da fala poderá ter no seu desenvolvimento pessoal e social.
Na verdade rapidamente se torna percetível a razão da fraca evolução em termos de terapia. A Catarina utilizou o seu defeito como uma “imagem de marca”, que acabou por reverter em favor da sua popularidade entre os colegas. Retirava benefícios secundários desta sua diferença e por isso não estava emocionalmente disponível para “melhorar”.

Em suma, para nós que estamos de fora, estas alterações podem até ser encaradas com humor, mas, para o adolescente, muitas vezes se constituem como um handicap para as suas vivências sociais, o que terá um impacto muito relevante na construção da sua identidade enquanto adultos. Até a própria postura perante o mercado de trabalho poderá ser completamente alterada, na medida em que muitas vezes evitam cursos e profissões que envolvam o contacto direto com o público.
Para bem dos nossos adolescentes torna-se primordial evitar uma atitude de desvalorização e atribuir a estes problemas a real importância que desempenham na sua vida. Neste contexto, é essencial procurar apoio de terapia da fala e/ou psicologia o mais cedo possível para evitar o impacto negativo no futuro. É importante salientar que, dependendo também do empenho do adolescente, alguns meses de acompanhamento podem ser suficientes para obter resultados favoráveis.
Tentemos colocar-nos no papel do jovem: já se sente diferente porque o seu corpo está a mudar e sente-se diferente porque tem consciência que não "sabe falar", é caso para refletir sobre o que sentiríamos nós no seu lugar?




sexta-feira, 4 de março de 2011

Gaguez: modificar, facilitar e encarar


     Na sequência da recente estreia do filme "O Discurso do Rei" (http://oscares.cinema.sapo.pt/2011/noticia/quando-a-voz-falha-e-o-discurso-do-rei-tambem), o grande vencedor dos Óscares e que culmina com o discurso do rei George VI, que sofria de gaguez, no início da II Guerra Mundial, não poderia deixar de abordar este tema.
Todos nós temos alturas em que não conseguimos ser fluentes a dizer o que pretendemos, em que nos "engasgamos", em que não encontramos a palavra certa para continuar o raciocínio, sobretudo alturas em que estamos cansados, sob pressão ou quando temos que falar em público… Para nós, as disfluências surgem como forma de ganhar tempo para formular a nossa mensagem, enquanto que o indivíduo com gaguez sabe o que quer dizer e manifesta disfluências não intencionais. Se pensarmos que a comunicação é a base das relações sociais, o impacto desta patologia na vida de um indivíduo pode ser tão grande que acabe por tornar-se mesmo incapacitante. Já imaginou como se sentiria se fosse a uma entrevista de emprego (já por si uma situação de stress) e não conseguisse, na recepção, dizer o seu nome? Ou se fosse a um café, quisesse um café mas, por se sentir inseguro com essa palavra e para evitar gaguejar, pedisse leite? E se estivesse perdido e não conseguisse pedir indicações? Estas pequenas situações têm um enorme impacto na qualidade de vida do indivíduo com gaguez e tornam muitíssimo importante a procura de ajuda.
Gaguejar caracteriza-se por uma diminuição na velocidade do discurso, maior esforço físico e mental no acto de falar e interrupções da transmissão da mensagem. É frequente a repetição de partes da palavra (ex.: pa-pa-pato) ou bloqueios, sobretudo quando as palavras começam pelas fonemas p,t,k,b,d,g, prolongamento de sons, sobretudo no "s" e no "ch" (ex.: ssssaia). Pode ser visível tensão e esforço no acto de fala. Estas características podem levar, por parte do indivíduo com gaguez, a comportamentos de evitamento (pausas fingindo pensar, substituição de palavras que consideram difíceis, mecanismos de arranque…), emoções negativas, como o medo, e mesmo alterações relacionadas com a resposta do sistema nervoso simpático ao medo e agressão como por exemplo parar a respiração, aumento da frequência cardíaca, pressão sanguínea, sudação ou piscar de olhos. Muitas vezes, utiliza-se a metáfora do "iceberg" para tentar explicar o que ocorre na gaguez: na maior parte dos casos a parte visível é muito pequena e é preciso explorar todos os sentimentos negativos subjacentes à gaguez, como sejam a tensão e o medo do insucesso.
            Entre os 3 e os 5 anos, cerca de 4 a 5% das crianças gagueja, mas apenas 1% dos casos se mantém. Nesta fase, a gaguez surge como resposta ao desenvolvimento linguístico e facilmente perdura se a criança encontrar modelos com gaguez ou com um discurso acelerado, se as suas disfluências forem valorizadas e rotuladas.
            Com o avanço das técnicas de neuroimagem é hoje possível investigar a gaguez mais cuidadosamente, apesar de se tornar difícil distinguir o que está na origem do distúrbio e o que resulta das compensações criadas pelo indivíduo ao longo dos anos. É bastante consensual o reconhecimento da existência de áreas hiperactivadas no hemisfério direito (relacionadas com as funções motoras) e um atraso da circulação da informação e na chegada a um local específico do hemisfério esquerdo. Tendo em conta esta premissa, existe um software, o Speech Easy que permite ouvir a voz pré-gravada com atraso, activando assim a matriz do processamento normal e evitando a gaguez, é um software que pode ser utilizado na intervenção. Similarmente, o mascaramento auditivo e a fala simultânea podem evitar a ocorrência de gaguez e ser um bom ponto de partida, demonstrando ao indivíduo que é capaz de produzir discurso sem gaguejar. Sabe-se também que a gaguez não afecta o canto, o que está relacionado com a activação de zonas cerebrais distintas, nomeadamente do hemisfério direito, mais relacionado com as habilidades artísticas. Estuda-se ainda a hipótese de as alterações de activação cerebral estarem relacionadas com um excesso de dopamina, um neurotransmissor responsável pela automatização de muitas funções, inclusive do controlo motor. Já foram desenvolvidos estudos com fármacos que, possivelmente, poderiam ajudar a controlar melhor a gaguez, mas ainda não há um fármaco cujos efeitos benéficos superem os efeitos secundários e que possa ser utilizado nestes casos.
            Ora, se não há nenhum comprimido, então como poderemos "tratar" a gaguez? Se estivermos a falar de uma criança, então, recorrendo à plasticidade cerebral, o tratamento poderá ainda ser possível, mas, na maior parte dos casos, sou de opinião que a gaguez pode ser considerada como uma doença crónica, o que é preciso é aprender a controlá-la. Assim, esse apoio para ultrapassar a gaguez deve ser procurado junto de um terapeuta da fala e, nalguns casos, com a ajuda de um psicólogo, sobretudo no sentido de explorar técnicas de controlo da ansiedade e de relaxamento. Há muitas abordagens diferentes à gaguez, a partir deste ponto foco-me na metodologia que defendo e utilizo na minha prática clínica.
            Em primeiro lugar, creio que é fundamental avaliar o impacto da gaguez no dia-a-dia do indivíduo, para isso temos que saber: o que acha da sua gaguez? qual a sua profissão? quando e como ocorre a gaguez? o que diminui a gaguez? o que a aumenta? Partindo da análise do quadro de gaguez, a minha intervenção segue o modelo CALMS (HEALEY et al., 2004):
·         Cognitivo: Consciencializar para a gaguez e para a fluência e melhorar os pensamentos e percepções acerca da sua gaguez.
·         Afectivo: Adoptar sentimentos, emoções e atitudes positivas face à gaguez, melhorando a auto-estima.
·         Linguístico: Melhorar o controlo do discurso em situações que exijam menor e maior controlo, colocando o paciente em situações distintas e aumentando a exigência sempre que alcança novo sucesso.
·         Motor: Incentivar ao uso de estratégias de modificação de fala – os 3 D'S (SHAPIRO, 1999): discutir a forma como é produzida fluência, demonstrar o que acontece na fluência e na gaguez e praticar actividades que promovam a fluência. Neste campo podem ser utilizadas técnicas como começos prolongados, paragens, menor velocidade para melhor controlo dos movimentos.
·         Social: Tentar estabelecer situações de interacções positivas, reduzindo o impacto dos factores causadores de disfluência.
No fundo, o importante é que o indivíduo com gaguez consiga tornar-se mais fluente, controlando a sua gaguez e encarando-a de frente. A terapia da fala centra-se, essencialmente, na procura da identificação do que acontece quando gagueja, na aprendizagem de estratégias para relaxamento, controlo de respiração e modificação do padrão de fala, ou seja, alterar voluntariamente a sua gaguez. Esta aprendizagem deve ser levada a cabo em diversas situações (leitura, monólogo, em conversação) que depois deverão ser praticadas pelo indivíduo sozinho, com alguém de confiança e, finalmente, no seu dia-a-dia.

Bibliografia
Healey, E. C., L. S. Trautman, et al. (2004). "Clinical applications of a multidimensional approach for the assessment and treatment of stuttering." Contemporary Issues Communication Science Disorders 31: 40-48.
Shapiro, D. A. (1999). Stuttering intervention: A collaborative journey to fluency freedom, Pro-Ed.
Silverman, F. H. (2003). Stuttering and other fluency disorders, Waveland Press.
Yaruss, J. S. and R. W. Quesal (2006). "Overall Assessment of the Speaker's Experience of Stuttering (OASES): Documenting multiple outcomes in stuttering treatment." Journal of Fluency Disorders 31(2): 90-115.